quinta-feira, 7 de maio de 2009

SEMINÁRIO PRESENCIAL IV - HISTÓRIA - C7

A turma de História do Circuito 7, apresentou no dia 27/04/2009 (Segunda-feira), o Seminário Presencial IV, concluindo assim, o 4º periodo (semestre).

Os grupos apresentaram e discutiram temas relevantes para a prática pedagógica do ensino de História no Ensino Médio e, contou com a participação da Professora Maria das Graças Carvalho, Licenciada em Ciências Sociais, Bacharel em Ciências Políticas, Especialista (pós-graduação) em Metodologia do Ensino Superior e Planejamento e Sistemas de Educação a Distância, que falou sobre o Papel do Professor de História e respondeu perguntas de alunos de todos os grupos.

Alunos da turma de História e a Professora Maria das Graças (convidada) - a 6ª da esquerda para a direita.

PARABÉNS! Neste Seminário percebemos o crescimento intelectual/conhecimento de toda a turma! Só há uma forma de crescer! Estudando! SEJAM BEM-VINDOS AO 5º PERÍODO (SEMESTRE)!

OUTRAS IMAGENS DO SEMINÁRIO:



































sexta-feira, 17 de abril de 2009

METODOLOGIA DO ENSINO DE PORTUGUÊS - LETRAS C7

DINAMICA - STOP


Eliete Batista Machado Oliveira
Leia Mendes da Silva
Suzana Mendes da Silva
Vilmonete Ferreira Machado Pires Ribeiro

Material:
Tabela com o nome das classes de palavras;
Tiras de cartolina com frases;
Caneta e ou lápis.
Objetivo:
Despertar no educando a curiosidade, habilidade, participação, agilidade e raciocínio, interação e domínio de conteúdo.

Metodologia:
Com empenho e concentração a dinâmica pedagógica será desenvolvida individual ou em dupla, procurando motivar o aluno e despertar a participação e agilidade para a revisão de conteúdo.
No decorrer, o professor mostra uma frase escrita na tira de cartolina.
Por Ex: Ontem a meninada estava animada, pois iria participar de um campeonato de futsal, onde João seria o craque.
Com agilidade o aluno procura preencher a tabela, pois quem primeiro terminar, grita: STOP, e os demais por determinação têm que parar. Em seguida será feita a correção pelo professor. Cada acerto vale um ponto.
Prosseguindo, o professor, mostra outra frase e assim por diante.
A dinâmica foi desenvolvida numa 1ª série do Ensino Médio e poderá ser executada em qualquer área de ensino e em qualquer série do Ensino Fundamental ou Ensino Médio.

sexta-feira, 13 de março de 2009

III SEMINÁRIO PRESENCIAL - CURSO DE BIOLOGIA - C 8

A turma do curso de Biologia do Circuito 8, apresentou no dia 11/03/2009 (quarta-feira) o III Seminário Presencial, concluindo, assim, o 3º período (semestre).

VEJAM AS IMAGENS DO SEMINÁRIO!





















































PARABÉNS! SEJAM BEM-VINDOS AO 4º PERÍODO (SEMESTRE).

terça-feira, 3 de março de 2009

REVISTA DA CULTURA

Cássia Fragata

Filha de cariocas, a escritora Ruth Rocha nasceu paulista em março de 1931. Sua infância “alegre e cheia de livros e gibis” foi no bairro da Vila Mariana, em São Paulo. Estudou em alguns dos melhores colégios da cidade, como o Bandeirantes e o Rio Branco, formou-se em Sociologia e Política pela Universidade de São Paulo e é pós-graduada em Orientação Educacional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Foi como atendente de biblioteca no colégio Rio Branco que Ruth começou a conviver com as crianças; conversava com elas e lhes indicava livros. Mas foi como orientadora educacional do mesmo colégio – cargo que ocupou por 15 anos – que passou a conhecer mais de perto os conflitos e anseios infantis.
Em 1967, começou a escrever artigos sobre educação para a revista Claudia e participou da criação da revista Recreio, da editora Abril, na qual teve suas primeiras histórias publicadas. Mas foi só aos 45 anos que lançou seu primeiro livro, Palavras, muitas palavras. De lá pra cá, já foram mais de 140 e cerca de 20 milhões de exemplares vendidos.
Em outubro de 2007, a escritora foi eleita para a cadeira 38 da Academia Paulista de Letras. Em seu discurso de posse, em 27 de abril deste ano, Ruth homenageou seus professores, os acadêmicos e seu grande mestre, Monteiro Lobato, e lembrou que o escritor foi o primeiro autor de livros infanto-juvenis a ser admitido na Academia. Mas a grande homenagem da noite ela dedicou aos pequenos. “Vejo poucas crianças na platéia, naturalmente pelo horário desta cerimônia. Mas a elas dedico as próximas palavras:

"Toda criança do mundo
mora no meu coração
Seja pobre, seja rica,
Seja grandona ou nanica,
Mulata, ruiva, amarela,
Seja bonitinha ou feia
De trança ou touca de meia
Use sapato ou chinela...
Seja branca ou seja preta
De seda ou de camiseta
Com diploma ou sem escola
Triste, alegre ou boazinha
Que goste de amarelinha
Ou goste de jogar bola...
Seja indiazinha do mato
Não goste de usar sapato
Caeté ou cariri
Caipira ou da cidade
Diga mentira ou verdade
Em português ou tupi.
More em casa ou num barraco
Coma na mão ou no prato
Viva lá no fim do mundo
Durma na cama ou no chão
Toda criança do mundo
Mora no meu coração.”


Ruth falou à Revista da Cultura e creditou às crianças a grande motivação para o seu trabalho.

O que a criança gosta de ler? Ela é que sabe. Cada criança é diferente das outras, tem vivência diferente, inteligência diferente, aptidões diferentes, constituição física diferente. O escritor escreve o que lhe apraz, o que lhe agrada, o que ele quer transmitir. O leitor escolhe de acordo com sua vontade.
Com tantos livros escritos, sentiu saudade de algum depois que terminou? Cada livro nos marca de uma maneira diferente e especial, mas não sinto saudade de nenhum, pois o importante mesmo não é escrever, é ter escrito.
Como é o seu processo de criação? Não sei explicar meu processo de criação, mas tem tudo a ver com leitura, conversa e alimentação pela arte e pela mídia. Conhecer crianças é o maior estímulo para meu trabalho.
O que pode fazer o escritor, a família, a escola, para que ler rime com prazer e não com obrigação? Fórmula conhecida: valorização da criança, da cultura, do conhecimento, da escola, do professor, da educação, dar exemplo: ler mais. Ter sossego em casa. Ter livros. Comprar, escolher, comentar. Verificar cuidadosamente as condições físicas e psicológicas da criança. Visão, ouvido, coordenação. Verificar se a criança fala bem. Conversar com ela. Falar e ouvir. Discutir pequenos problemas com lógica, sem emoção. Fazer da hora da conversa uma coisa prazerosa. Acompanhar com boa vontade, e visitar o médico quando necessário, o desenvolvimento da criança. Observar com carinho os eventos que possam causar problemas para a ela: dificuldades financeiras e conjugais dos pais; problemas de saúde da família; mortes, separações, traumas como assalto; rivalidade com irmãos, nascimento de outra criança na família. Jamais deixar a criança desamparada diante de violências. Principalmente da própria família. Amar seus filhos. A todos, igualmente, sem estimular competição pelo afeto dos pais.

Você adaptou a Odisséia, de Homero, para crianças, e seu marido, Eduardo, fez as ilustrações. Como foi? Como é trabalhar em família? Acho ótimo adaptar obras. E o fato de adaptá-las me dá a oportunidade de conhecê-las melhor e de amá-las ainda mais. O trabalho com Eduardo foi muito divertido.

Que tal adaptar Machado, Guimarães ou Graciliano? Não acho que esses autores tenham a distância necessária no tempo para precisar de adaptação. Além disso, são escritores do português e pertencem à nossa própria cultura.

Fale sobre a cadeira 38 da Academia Paulista de Letras. Como ficou sabendo da indicação e da votação? Fui convidada por alguns amigos da Academia, um dos quais o Loyola. Achei honroso e aceitei. É uma espécie de coroamento e a oportunidade de conhecer pessoas ilustres que eu ainda não conhecia.

Que títulos e autores foram importantes na sua formação? O autor mais importante na minha formação foi Monteiro Lobato. Além dele, reconheço a influência da poesia popular, das histórias que meu avô contava, dos livros que minha mãe leu para mim, das poesias que meu avô e minha mãe recitavam, das músicas que as lavadeiras cantavam. Como já disse antes, a leitura é o alimento do escritor. Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa etc., etc., etc. Li muitos, literatura francesa, inglesa, alemã, adoro a literatura portuguesa: Fernando Pessoa, Saramago, Eça de Queiroz, Miguel Torga etc.

O que tem lido agora? Leio muito atualmente sobre o Brasil, política, história, sociologia.

O que acha da educação dos pequenos hoje no Brasil? Lamentável em geral. Fora algumas ilhas de excelência, escolares ou familiares, o resto é lamentável, inclusive as manifestações da sociedade como um todo.

Poderia definir o que é cultura? Cultura é isso: a cultura acadêmica, bem temperada com a vida cotidiana. Com as influências familiares, com o entorno social, os amigos, a música, as artes, as festas, a comida, a cultura popular. ©


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sábado, 28 de fevereiro de 2009

REVISTA DA CULTURA

A internet fala a língua da pressa. A vida moderna nas grandes cidades, antenada, plugada, bombardeada de informação por todos os lados, também tende a falar cada vez mais o idioma da velocidade. Símbolos, gírias e abreviações são modos de comunicação que o formatam. Eles ajudam na rapidez, mas mexem com as bases da língua. O chamado internetês, uma palavra corrente, mas ainda ausente nos dicionários, é essa coisa híbrida, essa força de expressão.Como é que fica o português nessa história? Tem gente que espera o pior. O escritor Deonísio da Silva, doutor em Letras pela USP e autor do livro De Onde Vêm as Palavras (Mandarim), já chamou o internetês de “assassinato a tecladas da língua portuguesa”. O medo é de que a língua seja contaminada, que o internetês escrito nos e-mails, nos blogs, MSN, Orkut incentive o assalto à gramática. “O internetês é um fenômeno decorrente das transformações sociais, culturais e tecnológicas do mundo contemporâneo”, defende o professor e lingüista Marcos Bagno, da Universidade de Brasília. E completa: “Do ponto de vista dos usuários da língua, podemos até dizer que é bom, porque dá provas de vitalidade, de flexibilidade e capacidade de adaptação às exigências da vida moderna.”

Sutilezas em Alta Velocidade
Caso você não esteja ambientado às navegações na rede, prepare-se para entender esse novo mundo. Expressões criptografadas como vc, naum, blz, bj, kkkkkkkkk, rs vieram para ficar. Elas são as ferramentas da língua da pressa. E muitas vezes ajudam a nuançar o que a frase, por si própria, não conseguiu. O “rs” (risos) ao final de uma sentença, por exemplo, pode indicar que ali existe uma ironia, porque nem sempre dá para captar sutilezas em alta velocidade.“Não podemos pensar unicamente na função comunicativa, mas também na força criadora e criativa da palavra”, afirma Ubiratan Brasil, do jornal O Estado de S. Paulo. Especializado em literatura, Ubiratan não é amigo do internetês. “Ele elimina os ‘floreios’ da língua, aqueles termos que dão um colorido indispensável à linguagem.” Claro que a afirmação vale mais para a literatura do que para um bate-papo virtual. O leitor que se aventurar a dar uma volta pela internet atrás do idioma próprio da rede vai descobrir diferentes conversas de diferentes tribos. Talvez não entenda por que escrever um “naum” pode ser mais prático do que digitar um simples “não”. “Tem um shift ali no meio. Acho que apertar duas teclas ao mesmo tempo dá uma certa preguiça em algumas pes­soas”, diz a produtora e designer Cris Lima, que tem 22 anos e o hábito de navegar em sites diferentes de diversão e relacionamento, como Last-fm, Flickr, Otumblr, Orkut, MSN, MySpace e Skype.

“É preciso lembrar que o internetês é uma mera questão de grafia”, aponta o professor Bagno. “Expressões como ‘blz’ (beleza), por exemplo, são impronunciáveis, não têm realização fonética possível, de modo que não existe nenhuma chance de, no futuro, as pessoas ‘falarem’ como se escreve na internet”, ele diz. Ou existe?O certo é que não dá para remar contra a corrente. No computador, a juventude já escreve nessa língua. Até que ponto o internetês pode contaminar o português escrito? “A internet já contaminou”, afirma o dono de um dos mais acessados blogs do país, o também apresentador de televisão  Marcelo Tas. “Não só a língua, mas a forma como a gente vive”, diz.

Doce-de-Coco
O escritor Antonio Prata pondera: “A língua não é uma senhora com cuja saúde devamos nos preocupar em excesso.”Destacando, no entanto, a importância da gramática nas conversas eletrônicas: “Quando faltam vírgulas e acentos necessários à compreensão da mensagem, é ruim. Como dizia Stanislaw Ponte Preta: “quem gosta de doce-de-coco sabe a importância do circunflexo”.O internetês nasceu para suprir a necessidade de unificar dois mundos diferentes, o real e o virtual. “Outro dia, zapeando pelos canais”, diz a designer Cris, “parei para assistir a um filme que, para minha surpresa, era legendado em ‘internetês’. As pessoas andam escrevendo, falando, lendo e interpretando como fazem diante do computador. Em algum momento isso vai ter que se integrar ao português.” Escrever bem, mesmo que seja no espaço virtual, depende de leitura. Ler ajuda a entender o mundo. As pessoas andam lendo mais ou menos do que antes? Bem, a realidade da internet demonstra que, aos trancos e barrancos, elas têm escrito cada vez mais. Um outro passeio veloz por alguns blogs de diferentes matizes espalhados pela internet mostra que, no mínimo, as pessoas procuram escrever num português legível. Aliás, os blogs de literatura e informação em português proliferam na rede.

Estímulo à Leitura
O suporte livro, que os arautos do apocalipse condenaram ao desaparecimento há alguns anos, não parece querer abandonar seu corpo físico. O que falta é estímulo para a leitura. E bibliotecas espalhadas democraticamente pelo país. “Isso ajudou os portugueses”, afirma o escritor angolano José Eduardo Agualusa, que debita na conta das raras bibliotecas africanas existentes a escassez de novos e bons escritores no continente.

É conhecida a história de outro escritor de língua portuguesa, o brasileiro Ruy Castro, que começou a ler aos 4 anos, no colo da mãe. E debutou na leitura com as crônicas de A Vida como Ela É, de Nelson Rodrigues, publicadas no jornal carioca Última Hora. Claro que os tempos eram outros, e a casa da família de Ruy, recheada de livros, jornais e revistas, um caldo perfeito para quem queria aprender a ler. Hoje, Ruy trabalha no computador, cercado de livros. Mesmo nas mensagens rápidas da internet, escreve com a elegância de sempre.“Toda e qualquer língua viva do mundo é o resultado de todos os processos de transformação pelos quais ela passou ao longo de sua existência”, lembra o professor Marcos Bagno. “Se o português brasileiro contemporâneo é diferente do latim, do qual ele deriva, é porque ao longo da história houve muitas e variadas ‘contaminações’, isto é, processos internos à língua e também externos a ela, como o contato entre povos, as transformações sociais, as demandas culturais, etc.” Significa que um terreno tão fértil de expressão como a internet não passaria em branco no contato com a língua, mesmo que fosse apenas a escrita.

Apenas Ferramenta
Mas é importante saber que a internet não é um demônio com vontade própria, segundo Marcelo Tas. “A internet, assim como o telefone, os livros, a caneta Bic ou o liqüidificador, é apenas uma ferramenta”, ele diz. “É tarefa de cada um de nós descobrir uma forma de usá-la com sabedoria. Assim, vamos tecer uma rede que contenha conhecimento e beleza, e não só baboseiras.”O certo é que o preconceito puro e simples contra o internetês não vai ajudar a língua portuguesa a acomodar a riqueza da nova expressão surgida na rede. Que pode não ser culta nem bela, mas já é real. ©




Eles estão nas salas de bate-papo, nos e-mails, em toda a rede. São símbolos para comunicar estados de espírito (emoticons) e expressões das quais a tendência é não conseguir escapar. Conheça um pouco desse idioma:
AKI = Aqui
BJS = beijos
BLZ = Beleza
Buaa, snif = Choro, tristeza
Ctafim? = Você está a fim?
Ctaí? = Você está aí?
D+++++++++= Demais
FALOW = Adeus, até mais
KD = Cadê?
Pru6 = Para vocês
Rs, Hehehe, hauhuahaua = risos
T+ = Até mais, tchau
Vc = Você
;-) = Piscada, ironia
:-) = Feliz
:-( = Triste





Literatura e Comunicação na Era Eletrônica. Fábio Lucas (Cortez) - Este livro, de um grande defensor da expressão livre da internet, fala da criação literária tocada pelas mais variadas formas de comunicação da era moderna, como o rádio, o telégrafo, o cinema e a imprensa. Daí pode-se imaginar o que a internet é capaz de fazer com a literatura e a língua falada no Brasil. Interessante como ele compara a comunicação feita na velocidade da luz com o ritmo mais reflexivo da criação literária.

Preconceito Lingüístico: O que É, Como Se Faz. Marcos Bagno (Loyola- Existe, sim, um preconceito lingüístico arraigado na sociedade brasileira. Bagno, língüista e professor da Universidade de Brasília, mostra de que maneira a mídia e a multimídia colaboram para aprofundar essa atitude.

A Nova Desordem Digital. David Weinberger (Campus) - O autor analisa o fenômeno da gigantesca escalada da informação disponível na rede, e as maneiras, igualmente numerosas, de checar o que realmente interessa, se é valioso e correto.

The Cult of the Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Culture. Andrew Keen (Doubleday) - Keen é totalmente contra a “revolução” proposta pela segunda geração da internet, a web 2.0, com a interatividade de conteúdos propostos por amadores em blogs e sites como a Wikipédia e o YouTube. (Pode ser encomendado na Cultura)

A BOA LÍNGUA ESCRITA E FALADA - Dom Casmurro é apenas uma das obras-primas de Machado de Assis. Se escrever bem depende de um bom background de leituras, a melhor estratégia é começar pelo que interessa. Dom Casmurro não é apenas imensamente bem escrito: é um clássico de linguagem e de expressão cotidiana. A voz do autor ainda pode ser ouvida hoje, como se acabasse de ser pronunciada. Outra boa referência para se ter um português exemplar é ler Eça de Queiroz. Qualquer título vale pela elegância e correção no uso da linguagem.
Site:

REVISTA DA CULTURA

Tem mulher mais brasileira que aquela cujo primeiro texto literário que leu em português foi uma história de Monteiro Lobato no verso de um folheto do Biotônico Fontoura? E cujo primeiro êxtase foi ver um cacho de bananas? Escritora, tradutora, educadora, roteirista pioneira de programas de TV para crianças – e russa. Cada vez que se fala de Tatiana Belinky a toada é sempre a mesma. Mais de 70 anos de Brasil, vários prêmios, mais de cem livros escritos em bom português (entre os mais recentes estão O Cão Fantasma e Histórias de Bulka), jeito brasileiro, maroto, de viver e falar, mas russa, todo mundo acrescenta. Então não tem jeito mesmo, é pela Rússia que vamos começar.
Por Carlos Moraes

A Rússia é grande. Onde mesmo a senhora nasceu? Em São Petersburgo, que já foi Petrogrado, virou Leningrado e hoje é São Petersburgo outra vez. Uma cidade que surgiu do nada, como Brasília, com Pedro, o Grande trazendo arquitetos e artistas da Itália, da França. Meu pai estava lá completando seus estudos.

Como foi sua infância? Minha infância foi em Riga, na Letônia. A cidade é banhada pelo Rio Dángava, por onde os navios não paravam de passar a caminho do Mar Báltico. Da janela do nosso apartamento a gente via três grandes pontes, a dos carros, a dos trens e uma que os alemães construíram durante a guerra. No inverno o rio ficava congelado e pelo seu leito passavam pessoas, trenós puxados a cavalo... Na primavera, grandes blocos de gelo começavam a estourar, a explodir. Um barulho infernal, parecia um bombardeio. Um dia vi uma vaca desesperada em cima de um grande bloco de gelo a caminho do mar. As quatro estações eram dramaticamente bem definidas. Os crepúsculos eram lentos. Fui rever São Petersburgo quando fiz 9 anos. E sabe qual foi meu presente de aniversário? Uma visita ao Museu Hermitage. Nunca vou esquecer. As obras famosas, os grandes corredores, e eu ali, deslumbrada com tanta beleza.

Os livros já faziam parte da sua vida? Se faziam! Eu tinha uma estante bem provida. Nunca me lembro de mim sem livros. Meu pai lia ou me contava histórias. Aos 4 anos eu já sabia ler, primeiro em russo, depois em alemão. Em Riga, as placas das ruas eram em três línguas. Russo, alemão e letão, a língua da terra. Eu morava na Rua dos Navios.

Por que a decisão de emigrar? Por vários problemas sociais e políticos. A Letônia sempre foi um ponto de passagem. Volta e meia alguém pisava lá e tomava conta. Chegamos como imigrantes, em 1929. Sem nada. Minha mãe já era dentista formada havia dez anos, veio com seus instrumentos. Eu cheguei com uma correntinha no pescoço e um livro na mão. A correntinha tinha medalha do Moisés, o da Bíblia, que eu achava muito parecido com meu avô. O livro era do Turguêniev, de contos. Que tenho até hoje. Está ali, se desmanchando. Precioso, cheiroso. É o próprio cheiro do passado.

E a chegada ao Brasil, como foi? O navio aportou no Rio e foi um assombro atrás dooutro. Minha primeira estranheza no Brasil foi ver o sol se apagar de repente, como uma lâmpada. As pessoas todas de branco e chapéu de palha. Mas sabe qual foi o meu maior susto? Quando vi lá no porto um cacho de bananas. Em Riga a gente só via banana uma a uma, e uma vez por ano. Meu pai trazia de longe. Ela era repartida entre os três irmãos. E, de repente, lá embaixo, aquele cacho enorme. A gente não sabia nada do Brasil, o máximo que imaginava da América eram os arranha-céus de Nova York. Mas aquele cacho de banana ali solto, imenso, de vários andares... Eu disse: “mãe, acho que estamos em Cocanha, aquele país imaginário onde é tudo fácil e a comida chega do céu...” Mais tarde aprendi que o nome científico da banana é Musa Paradisíaca. Por isso acho que, no Paraíso, não foi maçã coisa nenhuma, foi banana...

Como foi sua transição do russo para o português? Natural. Criança aprende as coisas naturalmente. Mas não perdi o contato com as minhas outras línguas. Logo que nos estabelecemos na Rua Jaguaribe (SP), onde minha mãe abriu seu consultório, nós nos inscrevemos e passamos a alugar livros em duas bibliotecas circulantes, uma russa e outra alemã. Dona Eva Herz, mãe dos fundadores da Cultura, era dona de uma dessas imprescindíveis bibliotecas.

E sua descoberta de Monteiro Lobato? O primeiro texto que me caiu nas mãos foi um folheto do Biotônico Fontoura com uma história dele no verso. Era uma história do Jeca Tatuzinho. Eu tinha pouco mais de 10 anos e gostei muito, já lia em português com fluência. Mais tarde, tive um sério problema na biblioteca do Colégio Mackenzie, onde estudava. É que não me deixavam pegar os livros que queria. Só podia ler livros para – meninas! Eu tinha uns 12 anos e fiquei escandalizada. Como uma escola pode ter livros para meninas e livros impróprios? Nem sabia direito o que era impróprio, mas já não gostei. Fui me queixar para meu pai. Minha mãe era feminista e comunista, mas, nesses casos, não intervinha. O poeta e contador de histórias era meu pai. Ele foi, sentou na escrivaninha e, em bom português, escreveu dois bilhetes, um para a diretora e outro para a bibliotecária, nos seguintes termos: “Minha filha Tatiana tem a minha autorização para retirar da biblioteca os livros que ela quiser ler”. Foi um escândalo. Então uma fedelha dessas pode ler qualquer coisa? Mas como o pai era a última instância, passei a ler o que quisesse.

Dizem que até no seu casamento com o psiquiatra e escritor Júlio Gouveia os livros foram importantes. Nosso casamento foi também um encontro de nossas estantes. Tem uma história engraçada. Éramos namorados, durante o dia ele estudava e eu trabalhava, de forma que a gente se encontrava à noite. Eu morava na Rua Itacolomi e depois do jantar íamos passear ali perto, na Praça Buenos Aires. Uma noite, lá estávamos nós conversando num banco quando de repente chega um guarda e pergunta: “mas vocês são namorados mesmo?” Respondi, irritada: “somos sim, e daí? Não pode?” E ele: “não, tudo bem, é que nunca vi namorado falando tanto, vocês só falam”. E a verdade é que tínhamos sempre muito assunto. Júlio era poeta, lia livros diferentes dos meus e tínhamos muitas convergências, mas também muitas divergências. É claro que a gente não só falava, mas aquela noite calhou de ter muito assunto e as discussões foram ficando muito acesas, para o espanto do guarda.

Como começou, por volta de 1952, o trabalho de vocês no teatro? Na festa de aniversário de uma menina de 4 anos, filha de amigos. Júlio gostava muito de teatro. Ele chegou e disse: “por que, em vez de uma boneca, a gente não dá de presente um teatrinho para essa menina?”. Ele foi e adaptou um trecho do Peter Pan, reunimos os irmãos, os amigos e, na festa, apresentamos o espetáculo. Foi um sucesso. Um funcionário da Secretaria de Cultura sugeriu que a peça fosse aumentada e apresentada no Teatro Municipal, em benefício de uma escola. Outro sucesso. Naquela época, não existia um teatro para crianças. Durante quase três anos fizemos isso. Foi assim que começou o nosso Teatro Escola de São Paulo, num aniversário de criança.

E a televisão? Nosso grupo foi ficando conhecido e a TV Tupi nos convidou para apresentar algumas peças. Era um teatro meio cinema. Com três câmeras se aproximando, se afastando... O público adorou e o telefone da emissora não parava de tocar: eram pais pedindo mais programas para criança na TV. Começamos com Fábulas de Esopo, fábulas alemãs, peças curtinhas, de uns dez minutos. O nome era Fábulas Animadas. Depois de algumas semanas, a Tupi nos pediu algo brasileiro. Foi então que entrou a adaptação do Sítio do Picapau Amarelo. O primeiro foi o Júlio quem escreveu. Ele tinha experiência, era diretor do teatro amador do Sesc. No segundo espetáculo ele disse: “agora é com você”. E foi assim que virei roteirista.
O espetáculo, claro, era ao vivo. Como faziam em caso de falhas? O grupo ensaiava muito, horas e horas, às vezes até tarde da noite. Eu já tinha sacado bem o funcionamento das três câmeras, mais o som, a iluminação. Às vezes a câmara passava de um cenário para o outro. Algum problema, o que era raro, a gente simplesmente trocava de cenário. Foi tudo muito heróico e maluco durante... doze anos! E tudo sem contrato. Não queríamos que ninguém interferisse. Comerciais, só antes e depois do espetáculo. O livro, donde saía a história, era mostrado para o telespectador.

A senhora conheceu Monteiro Lobato? Uma vez, bem antes da TV e mesmo do teatro, ele nos procurou. Eu já estava casada, tinha dois filhos. Uma noite o telefone toca e uma voz meio áspera lá do outro lado pergunta: “Aí é a casa do Júlio Gouveia?” “É, quem quer falar com ele?” “Aqui é o Monteiro Lobato”. A minha reação: “Ah é? Pois então eu sou o rei Jorge da Inglaterra?” Ele riu, me explicou que era ele mesmo, que havia lido um texto do Júlio sobre sua obra e perguntou se podia nos visitar. Às nove horas tocou a campainha. Júlio abriu a porta e ele foi logo dizendo: “Na sua idade, eu tinha a sua cara”. Engraçado que o meu pai disse a mesma coisa quando conheceu o Júlio. Todos queriam ser bonitos como ele!

Como foi a visita? Conversamos por umas duas horas. Na hora de fazer o café, telefonei para meu irmão Benjamin, pedi que viesse correndo conhecer Monteiro Lobato em pessoa. Tínhamos todos os seus livros, ele era objeto da nossa suprema admiração. Tanto que Benjamin me respondeu: “Isso é hora de trote?” Depois veio correndo e ficou meio paralisado diante da figura do Lobato. Quando apertou sua mão, como que se esqueceu de retirar. Depois me cochichou: “Nunca mais lavo esta mão”.

Cinema, televisão e, agora, Internet. Que será do livro? Nada jamais vai substituir o livro. O livro é algo seu, você leva aonde quer, lê, relê, é um amigo mesmo. Nada como ele para estimular a cabeça, a imaginação. Um mesmo livro é quantos leitores ele tiver. Porque cada um deles vai entender do seu jeito. Outro milagre: em cada releitura o livro é diferente para a mesma pessoa. O livro que alguém relê aos 40 anos vai dizer coisas diferentes daquelas da primeira leitura, aos 20... Um bom livro não tem começo nem fim, é infinito.

Como os pais podem estimular a leitura? Lendo, tendo livros em casa. Criança é curiosa, graças a Deus. Se vê um livro ali, fechado, ela vai abrir. Mas tem de ter o livro. O Ziraldo diz que ler é mais importante que estudar. Porque para a criança o importante não é estudar, é aprender. E ela aprende o tempo todo. Profissão de criança é aprender, mesmo quando está brincando. Especialmente quando lê, está aprendendo.

O que é um livro bom para as crianças? Minha neta disse uma vez: “Sabe, Tati, livro que não dá pra rir, que não dá pra chorar e não dá pra ter medo não tem graça”. É isso aí.

O que um escritor de livros infantis deve levar em conta? Senso de humor é importante. E não se preocupar muito com a moral da história. Com esse negócio de isso pode, isso não pode, isso é bonito, isso é feio, isso é de menino, isso é de menina... Desde pequena gosto de fábulas, mas sempre achei que a tal moral da história é um desaforo. A boa história é a que se explica por si mesma. E se a criança quiser entender de uma forma diferente? Mais original, mais bonita, mais dela? A criança sabe tirar suas conclusões. Ética é bom, mas não deve ser imposta. Criança tem muito senso de justiça.

Dentre seus muitos livros, Coral de Bichos, O Grande Rabanete, tem um que se chama Limerique das Coisas Boas. O que vem a ser um limerique? O limerique é um estilo de verso inspirado numa cidade da Irlanda, Limerick, e desenvolvido pelo poeta Edward Lear. São cinco linhas, três versos rimando, o primeiro, o segundo e o quinto; o terceiro e o quarto, mais curtos, rimam entre si. Isso dá ritmo, é ótimo para fazer algumas brincadeiras. Aprendi na Playboy americana. Claro que o autor lá se valia do limerique de uma forma maliciosa. Mas aí eu pensei: posso brincar com isso de outra maneira. A idéia é ressaltar uma coisa que é o contrário do que penso, e a criança, que não é nada boba, vai entender direitinho. Olha este exemplo aqui:

“Quem pensa que eu sou uma ogra
No seu pensamento malogra.
Língua bifurcada?
Só quando enfezada.
Porque eu sou mesmo é sogra.”

A senhora é escritora de sucesso, foi pioneira na televisão e uma guerreira do livro. Qual é, na sua visão, a grande figura feminina da literatura brasileira? Capitu e Machado de Assis que me perdoem, mas é a Emília, do Monteiro Lobato, por sua impertinência e sua independência. Ele conta que, quando estava ali, formatando seus textos, a Emília ficava ao seu lado, dando palpites, cobrando. Um dia ele perguntou: “Quem é você, afinal?” Ela respondeu: “Eu sou a independência ou morte”. ©

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REVISTA DA CULTURA



Em movimento inédito no mercado editorial brasileiro, a obra completa de Jorge Amado, escritor que influenciou toda a cultura nacional, será relançada aqui e no exterio
por Mônica Rodrigues da Costa

Um empreendimento inédito no mercado editorial brasileiro ultrapassa as fronteiras literárias com uma indiferença salutar ao cânone e lança novamente em todo o país a obra de Jorge Amado – o Roberto Carlos da literatura brasileira, o nosso rei – com festas e flores. Em outras palavras, a partir de uma grande campanha publicitária, com palestras, exposições fotográficas e filmes, site bilíngüe na internet e shows e homenagens que incluem Chico Buarque, Caetano Veloso, Nana, Dori e Danilo Caymmi, um suplemento para crianças e capacitação para professores em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Salvador e Belo Horizonte. O feito é da Companhia das Letras, toda concentrada nesse megaevento que ocorre de março deste ano até 2012, ano do centenário de nascimento do escritor. De acordo com o editor da casa editorial, Luiz Schwarcz, o relançamento da obra do baiano está “à altura de Jorge Amado. Sua obra ultrapassa os limites da literatura, porque ele influenciou toda a cultura brasileira. O trabalho de divulgação da obra de Jorge Amado está sendo construído em longo prazo e é voltado para a formação de novos leitores. Envolve estímulo a crianças e jovens, com concursos e premiações dos melhores trabalhos sobre o autor para que sua obra seja valorizada como merece”.

Schwarcz contou que foi autorizado pela família Amado a dirigir também as publicações internacionais de seus livros a partir das edições paulistanas. Bem cuidadas graficamente, com revisão primorosa, os livros trazem prefácios de artistas célebres no Brasil e no mundo: José Paulo Paes, João José Reis, Peter Fry, Nelson Pereira dos Santos, Tatiana Belinky, José Saramago, Mia Couto, entre outros. Os primeiros volumes publicados são A bola e o goleiro (de 1984, para crianças, ilustrado por Kiko Farkas), Dona Flor e seus dois maridos (de 1966, que vem acompanhado de um caderno de imagens do filme e da série televisiva homônimos), Capitães da areia (1937), com posfácio de Milton Hatoum, Mar morto (1936), A morte e a morte de Quincas Berro d’Água (1959) e Tocaia grande (de 1984, com posfácio de Roberto DaMatta e caderno de imagens). A Coleção Jorge Amado, coordenada por Alberto da Costa e Silva e Lilia Moritz Schwarcz, traz também o romance Jubiabá (1935) em forma de história em quadrinhos, desenhada por Spacca, que passou uma temporada em Salvador para observar “lutadores de capoeira e os vendedores que trabalham nas ruas para fazer um livro que interesse a públicos de todas as idades”. Trará também um livro inédito, de artigos que o autor escreveu sobre a Segunda Guerra Mundial para um jornal de Salvador, com lançamento ainda em 2008. Para Lilia Schwarcz e Alberto da Costa e Silva, Jorge Amado ensina a compreender o Brasil. “Em uma época em que a mistura de raças era entendida como um grande problema, já nosso autor, nas obras que foi criando, se transformou em um grande defensor da mestiçagem entre brancos, negros, cafuzos, caboclos, mulatos” – escreveram os organizadores na apresentação da coleção. As tiragens dos livros iniciais variam entre 3 mil e 15 mil exemplares, e os preços, de 24 a 51 reais. Tais volumes estão desde março nas livrarias.

João Jorge Amado, 60, escritor como o pai, disse que está contente com a escolha da Companhia das Letras para editar a obra de Jorge, devido à proposta editorial dessa empresa. “Mas as seis editoras que nossa família convidou por meio de uma carta-convite apresentaram a proposta de buscar novas faixas de leitores e um cuidado muito grande com as edições.” João Jorge lança em março o livro Lá ele, o esparro na Bahia. Segundo o autor, trata-se de “um estudo sobre as expressões ou coisas faladas com duplo sentido que têm por objetivo colocar a pessoa com quem se fala em um esparro (embaraço)”.
Influências
Para o dramaturgo e ensaísta paulistano Otavio Frias Filho, autor de Queda livre –Ensaios de risco, diretor de redação da Folha de S. Paulo, todo brasileiro recebeu a marca da prosa de Jorge Amado: “Eu diria que é uma influência que está no ar e atravessa as gerações. De minha parte, acho que fui influenciado ao menos por Capitães da areia, que li, acredito, aos 12 anos – leitura para mim inesquecível. Idem quanto a Gabriela, que devo ter lido quando tinha talvez 16 anos”.
O melhor de tudo é que os leitores aprendem com Jorge Amado, ao mesmo tempo em que se divertem com as aventuras por ele criadas. Para lembrar aqui a idéia do poeta paulistano José Paulo Paes (1926 – 1998), suas narrativas problematizam – e provocam – a prosa nacional, se pensadas sob a perspectiva da estética da ficção, e são lúdicas a ponto de promover o entretenimento do público mais simples, que lê enquanto espera o ônibus. As histórias do criador da saga do cacau estão no coração de leitores de todas as classes sociais – o que é reforçado pelo fato de romances e novelas suas terem se transformado em filmes, telenovelas, seriados. Proporcionar o prazer da leitura é a característica mais importante, segundo o poeta paulistano Frederico Barbosa, diretor do espaço cultural Casa das Rosas e professor de literatura (deu aulas no ensino médio do Logos e em cursos preparatórios para vestibular, como o Anglo), além de autor de Cantar de amor entre os escombros, entre outros. “Esse relançamento chega para romper um velho preconceito contra a ficção de Jorge Amado, contra o best seller e contra – o mais importante – certa elite endinheirada que acha que é pecado fazer arte para ganhar dinheiro. Jorge Amado viveu da literatura, foi um escritor comercial, mas isso não significa que não tivesse domínio de sua obra e não tenha sido um espírito curioso e generoso. Ele não se deixou levar pela narrativa derramada do regionalismo dos anos 30. Foi homenageado por Graciliano Ramos – que tem o estilo mais econômico –, que ele incentivou a publicar seu primeiro livro, Caetés, dedicado a Jorge Amado. Para certos críticos é um desprestígio produzir uma literatura que seja gostosa de ler, que dê prazer.”

O baiano Aleilton Fonseca, autor de Contos cruéis, contou que começou a ler Jorge Amado também na adolescência. “Sou de origem grapiúna (do litoral), passei a infância e a adolescência em Ilhéus, vivi e cresci nos cenários do romance Gabriela. Creio que minha predileção por temas, ambientes e situações populares, por personagens simples do povo, por enredos e vivências de feição interiorana e por narradores que primam pela forma de ‘contar’ a história para envolver o leitor é, em certa medida, resultado de minhas leituras amadianas.”

Fonseca, também co-editor das revistas Iararana e Légua e meia – de literatura e diversidade cultural, editadas na Bahia –, concorda com Barbosa: “Alguns críticos literários faziam-lhe (alguns ainda fazem) restrições estéticas. Paradoxalmente, Jorge Amado sempre foi um autor muito lido, com obra de grande apelo popular. Seus livros constituíram ‘leitura escondida’ de algumas gerações de mulheres ‘de família’. Com a crescente liberação dos costumes e, no Brasil, com a multiplicação dos cursos de letras, sua ficção passou a ser mais referenciada e adotada em estudos importantes. Sua obra é um monumento literário, que exige edições com aparato crítico e iconografia”.

Para Evelina Hoisel, professora titular de teoria da literatura da UFBA e integrante da Academia de Letras da Bahia, o mérito do texto de Jorge Amado está na construção dos personagens, a partir do diálogo entre o erudito e o popular, criando uma teia de relações que não existia antes na literatura brasileira. “Jorge Amado criou um código de representação de valores que passam por seus personagens, que a crítica literária canônica não teve parâmetros para ler, por ser hierarquizante e por privilegiar valores instituídos, da alta e ‘bela’ literatura. Jorge Amado vem rasurar esses padrões”, comenta Hoisel, autora de Grande sertão: Veredas – Uma escritura biográfica (Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2006) e de Supercaos – Os estilhaços da cultura em Panamérica e Nações Unidas.

Perfil do escritor e da obra O sertanejo, o malandro de praia, o fazendeiro, a prostituta, a beata, o comerciante imigrante árabe, os filhos de portugueses e espanhóis, o capoeirista multicor, o homem de bem estão representados na obra de Jorge Amado e desenham o brasileiro sincrético e multirracial. Também estão lá a corrupção política, o combate ao nazismo e aos regimes totalitários, a glosa, o deboche, o sincretismo religioso e as expressões idiomáticas dos nordestinos, especificamente dos baianos, tudo narrado cinematograficamente em tom irônico e consciente, oscilando entre a concisão oswaldiana de um Serafim Ponte Grande e o derramamento lírico das canções populares. Personagens reais transpostos com precisão para a ficção que, agora, revisada à luz da passagem do tempo, constata-se terem contribuído para adensar a literatura nacional. Não é à-toa que o leitor contemporâneo reconhece em sua obra a presença de personagens febris como o Raskólnikov, de Dostoiésvski, ou os olhos entornados machadianos, seja em Gabriela, cravo e canela, seja em Farda fardão camisola de dormir, romances escritos em 1958 e 1979, respectivamente.

Jorge Amado nasceu entre Ilhéus e Itabuna, em uma fazenda, e criou romances do ciclo do cacau. Depois, morou em Salvador, viajou pelo mundo, radicou-se em Paris. Foi existencialista, amigo pessoal de Jean-Paul Sartre e um bricoleur, reunindo assuntos e motivos recorrentes na criação literária internacional – seus livros foram traduzidos em mais de 40 países. O poeta e crítico literário Haroldo de Campos (1929-2003), na ocasião de sua morte, em 2001, declarou à Folha de S. Paulo que Jorge Amado foi o maior contador de histórias do país: “Para mim, o que há de mais significativo na obra de Jorge Amado é sua imaginação fabular, sempre capaz de engendrar novos enredos. Nesse particular, sua obra que mais me agrada é A morte e a morte de Quincas Berro d’Água, em que ele retoma um tema lendário e tradicional. Desde o começo de sua carreira, ele sempre conseguiu pontilhar sua narrativa de traços metafóricos, de um cunho lírico que percorre e dá graça a seus textos”.
Para o escritor baiano Aleilton Fonseca, que também viveu em Ilhéus e é autor de Nhô Guimarães – Romance–homenagem a Guimarães Rosa, além de doutor pela USP, professor de literatura brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana e correspondente da revista francesa Latitudes: cahiers lusophones, a ficção de Amado, além do valor estético formal, é um testemunho etnográfico e sociológico do Brasil. Quem não se lembra da gangue de meninos de rua chamados popularmente na cidade da Bahia de “capitães da areia”, que brincavam e furtavam nas praias que vão do bairro do Cantagalo até a Boa Viagem dessa velha Salvador e que agora comandam o país com os grupos de traficantes de armas e drogas?


“Jorge Amado inventou um novo tipo de romance, a partir da matriz romântica popular e do espírito neo-realista da ficção social de 30, em que história, ideologia, denúncia, aventura e situações prosaicas compõem narrativas que se caracterizam pelo toque épico e lírico, pelo dinamismo do relato, pelas passagens satíricas e cômicas e pela linguagem desabusada do narrador. Amado produziu uma ficção política na época em que foi militante comunista, um aspecto hoje considerado menor de sua obra. Muito além disso, ele criou a saga romanesca do cacau, no sul da Bahia, ‘a terra dos frutos de ouro’, com os desbravadores, fazendeiros, coronéis, jagunços, exportadores e políticos locais, mostrando o contexto do auge e da decadência do coronelismo provinciano e sua lenta superação pela classe média urbana. Amado também criou o romance que valoriza os elementos populares grapiúnas e afro-baianos, incorporando à ficção uma geografia étnico-cultural até então menosprezada pela cultura oficial”, explicou Fonseca.
Diz José Saramago, na coleção que agora se publica, sobre o “gigante” Jorge Amado: “Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma parte importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil quando começou a ler Jorge Amado. E para muita gente foi uma surpresa descobrir nos livros de Jorge Amado, com a mais transparente das evidências, a complexa heterogeneidade, não só racial, mas cultural, da sociedade brasileira”. ©